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Testes acima dos 150 km/h, soluções "mais caras" e uma borboleta. As seis lições que as tempestades nos deixam



 Num momento em que a comunidade científica alerta para a crescente frequência e intensidade de fenómenos extremos, a pergunta impõe-se: faz sentido reconstruir infraestruturas pensadas para um clima que já mudou? Antes de qualquer impulso, dizem os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, há um dado que não pode ser ignorado: o preço

“Não vale a pena estarmos a pôr velas no altar”. A frase é de Nuno Ribeiro da Silva, antigo secretário de Estado da Energia e antigo presidente da Endesa, que visitou as zonas afetadas pela tempestade Kristin em Ferreira do Zêzere e chegou a uma conclusão. “Há coisas em que, seja pelas razões técnicas e da engenharia, seja por razões económicas, não têm mesmo uma solução fácil”. O que encontrou foi, nas suas palavras, “uma coisa nunca vista”.


Postos de muito alta, média e baixa tensão, “tudo arrasado”, suportes partidos, linhas no chão “por todo o lado”, subestações “muito afetadas” - um verdadeiro “blitz”. Isso reforçou-lhe a convicção de que a discussão pública precisa de sair do registo das respostas imediatas. “Serão meses até recuperar o sistema elétrico”, afirma, sublinhando que, no momento em que a rede é varrida, não há atalhos que valham e o processo de recuperação será necessariamente lento, complexo e caro: “Até posso recuperar um posto aqui e acolá e uma linha aqui e acolá, mas como isto está tudo interligado, se também não tenho a montante ou a jusante a capacidade e as condições para recuperar as linhas, mesmo uma que tenha posto de pé não vai fazer nada”.


Mas com uma parte significativa da comunidade científica a alertar que eventos climáticos extremos tenderão a tornar-se mais frequentes e mais intensos, a pergunta impõe-se: faz sentido reconstruir exatamente como antes? Ou estaremos a reerguer infraestruturas para um clima que já mudou? Talvez por isso a ideia de desenvolver uma rede alargada de cabos subterrâneos tenha ganhado força nos dias seguintes à tempestade, quase como resposta intuitiva à imagem de torres tombadas. 


Lição 1. A solução não pode ser cara demais

Mas para o antigo presidente da Endesa há um dado que trava logo o impulso. “A rede elétrica subterrânea é muitíssimo mais cara do que a rede elétrica aérea”, lembra, sublinhando que esse custo “tem de ser pago na fatura dos consumidores”. “É o que chamamos de potência contratada, portanto, a parte fixa do custo que temos na fatura elétrica, e, portanto, há essa questão de preço, que não é negligenciável, pelo contrário, é bastante importante e pesada”.


Enterrar a rede multiplica por “10 a 15 vezes o custo de instalação”, sublinha João Peças Lopes, professor catedrático do Departamento de Engenharia Eletrotécnica da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e diretor associado do INESC TEC, lembrando também que as questões não se esgotam no preço.


O professor recorda um verão particularmente quente em França que mostrou os limites físicos desta solução subterrânea. “Estava imenso calor, os cabos passavam por debaixo do tapete de asfalto, o asfalto é negro, portanto absorve a radiação solar e tudo aquilo que havia por baixo do tapete de asfalto resultava numa temperatura do solo extremamente elevada. O problema foi que “o solo estava tão quente que eles não conseguiam evacuar o calor que produziam. E, portanto, tiveram de ser cortados, porque não podiam alimentar a totalidade dos consumos”. Leia-se: “É preciso ter muito cuidado com estas coisas, porque não há soluções milagrosas”. 


Além disso, lembra que um cabo subterrâneo não é como se fosse uma linha aérea enterrada. “Um cabo subterrâneo tem de passar pelas vias de comunicação terrestres que existem, ou seja, passa pelas estradas, pelas autoestradas, pelas ruas, porque não pode passar por baixo de casas, não pode passar por baixo de campos. Portanto, tem de seguir uma trajetória que é mais extensa e todo o processo de construção é todo ele mais pesado”.


Lição 2. Enterrar cabos em zonas críticas

Mas isso não significa que a hipótese de enterrar cabos seja simplesmente descartada. Para Nuno Ribeiro da Silva, há uma lição a ser retirada dos efeitos da tempestade e, ainda que “em nenhum sítio do mundo haja uma rede elétrica totalmente enterrada”, é possível “termos troços em que seja feito enterramento, porque são considerados e referenciados como zonas críticas mais vulneráveis”, como por exemplo, “um vale que funciona muitas vezes como corredor de vento".


Ainda assim, enterrar um troço não resolve tudo. “Eu posso enterrar um troço e reforçar esse troço particularmente vulnerável, e, no entanto, se o poste ou o cabo parte a montante ou a jusante dessa zona que está enterrada, tem um problema, porque os eletrões não passam”. É um bocadinho como o jogador de futebol que pode pôr uma caneleira, “mas se leva um pontapé na coxa, fica também sem conseguir jogar”. A tempestade, diz, mostrou precisamente isso, que há limites para aquilo que o dinheiro consegue resolver. “Há coisas em que, seja pelas razões técnicas e da engenharia, seja por razões económicas, não tem mesmo solução fácil. Não vale a pena estarmos a pôr velas no altar”. 


"A solução vai passar sempre por ter soluções de recurso, que são mais caras, e como tal, devemos identificar com muito cuidado as zonas onde as queremos verdadeiramente instalar", sublinha João Peças Lopes.


Lição 3. Testar acima dos 150 km/h e reforçar com aço

Ainda assim, de forma prática, há alterações que podem ser feitas. A começar pelos testes que são feitos às infraestruturas. Hoje, as linhas de muito alta, alta e média tensão são dimensionadas para ventos na ordem dos 150 quilómetros por hora. Na depressão Kristin, em alguns locais, os ventos ultrapassaram os 170 km/h. A diferença pode parecer apenas numérica, mas, como explica João Peças Lopes, é aí que tudo muda: a pressão do vento sobre os cabos aumenta, transmite-se aos apoios, gera forças que as estruturas simplesmente não estavam preparadas para suportar.


“Temos que rever os regulamentos de segurança que determinam as hipóteses de cálculo mecânico das infraestruturas das linhas aéreas”, defende. “Eu acho que se devia passar a admitir ventos muito mais elevados que os 150 km por hora”. Isso implica, naturalmente, “uma revisão de dimensionamentos das infraestruturas que já existem”. 


Na mesma linha, Nuno Ribeiro da Silva aponta para ajustes mais concretos no terreno. “Posso ter um reforço da engenharia em que, sobretudo em zonas críticas, suscetíveis a maiores ventanias, reforço as estruturas”. Vai custar dinheiro, admite, “mas, apesar de tudo, não é um aumento tão impactante e tão insuportável” como enterrar a rede.


E reforçar significa mesmo reforçar. “É na estrutura dos suportes, dos postes, por exemplo, ter mais aço”. Mas não só. Ribeiro da Silva levanta ainda outra hipótese técnica: a altura das próprias estruturas. “Vejo em muitos países, em França, na Suíça, tipicamente países da Europa Central, Alemanha, entre outros, em que os suportes não estão a uma altura tão elevada como estão, tipicamente, nas redes nacionais”. E lembra um dado básico: “Os ventos sopram com maior violência a maiores altitudes”. Talvez, sugere, seja altura de estudar “se, de facto, temos uma necessidade de ter os suportes e os condutores a uma altura tão grande do solo". Ainda assim, reconhece os limites: “São formas de mitigar isto, mas não resolve, porque se é tudo varrido, é tudo varrido”.


Lição 4. Evitar a metáfora da borboleta e do tufão

Também o professor João Peças Lopes converge nesse ponto essencial. “Uma solução de reforço das infraestruturas aéreas, das linhas aéreas, é claramente mais barata.” Mas para é necessário “ter perfis metálicos com maior capacidade de suportar esforços”. E não basta olhar para o poste: “As próprias fundações têm que ser revistas, porque depois aquilo traduz-se num momento derrubante e, se a fundação não tem capacidade de contrapor um momento estabilizante, aquilo vai ao chão”.


Para além de tornar o sistema mais robusto, para Nuno Ribeiro da Silva há outra dimensão nesta aprendizagem: reduzir a exposição do conjunto, adaptando àquilo que a tecnologia nos dias de hoje pode oferecer.  “O ideal é termos a geração de eletricidade mais próxima das zonas de consumo”, sublinha apontando que a tendência será termos “uma geração de eletricidade disseminada no território, com parques eólicos, com parques solares, com centrais de biomassa, com geotermia”. Essa dispersão, defende, permite construir “redes com carácter mais local e regional que evitem ou que mitiguem que a infeção, entre aspas, se estenda ao corpo todo”. 


A imagem que Nuno Ribeiro da Silva usa para ilustrar este argumento é simples: numa rede totalmente interligada, “uma borboleta bate a asa e provoca um tufão no outro lado do planeta”. Um sistema mais descentralizado tende a ser “menos infecioso”. 


Lição 5. Geradores e grupos de socorro móveis

Mas mesmo um sistema mais robusto e mais descentralizado pode falhar perante um evento extremo. Para João Peças Lopes, a aprendizagem aqui a retirar é que é preciso preparar o país para o cenário limite. “Como, por exemplo, alimentações de estações de tratamentos de águas, com eletrobombas para garantir que há água para distribuição pública, tratamentos de esgotos, hospitais, lares. Todas essas instalações, futuramente, têm de pensar em ter geradores”.


A solução passa também por reforçar os próprios nós da rede e “admitir a possibilidade de alguns geradores poderem ser instalados nos postos de transformação”, diz, referindo-se ao último ponto antes da eletricidade chegar às casas. E ir mais longe: criar “grupos de socorro” móveis que possam ser deslocados para as zonas mais afetadas. “Como estes grupos de socorro normalmente são móveis, se eu perceber que tenho uma zona que está muito afetada e que o resto do país não tem esse problema, estou a deslocar os grupos dos locais onde o problema não ocorreu para os locais onde eles ocorreram”.


E há ainda uma ferramenta que já existe e pode ser usada em emergência: os contadores inteligentes. “O operador da rede pode mudar a potência máxima que ele consome”. Em situações críticas, explica, “o que se tem de fazer é limitar as potências desses contadores para que todas as pessoas consigam consumir alguma coisa, mas nunca consumir grandes volumes de energia elétrica.” Algo que não é confortável, mas que permite repartir a escassez. 


Lição 6. É necessária uma "convenção"

Mas a vulnerabilidade revelada pela tempestade não começa nos postes nem termina nas linhas. Para o engenheiro Carlos Gaivoto, o problema é mais fundo: está na forma como o território foi sendo ocupado e gerido. “Não temos essa tradição”, diz, referindo-se à tradição de planeamento estratégico que outros países foram consolidando ao longo de décadas. “O problema é que nós não temos. Não temos e o poder político ignora, ou pelo menos tem-se feito desentendido relativamente àquilo que é preciso fazer”.


E o que está em causa, insiste, não é apenas técnica. “Estas questões não se resolvem só tecnicamente", diz, sublinhando que se resolvem "a vários níveis, até ao nível legislativo e institucional, ao nível político e ao nível técnico". Em França, recorda, depois da tempestade de 1999, houve uma resposta estruturada: “Eles já têm uma tradição de planeamento. Uma tradição de planeamento, não só estratégico, mas também de planeamento operacional”. As agências de urbanismo e as autoridades de transporte trabalham de forma articulada e permanente. “Estão a construir soluções muito mais resilientes e muito mais sustentáveis. Nós não temos essa tradição”.


Parte do problema, na sua leitura, está no modo como as cidades cresceram. “O sistema tem-se reproduzido com esta forma especulativa, é tudo valor de troca, não há valor social do solo, é só construir e construir”. E isso tem consequências. “Quando não se respeitam as mínimas regras de urbanismo ecológico, quando não se respeitam princípios de resiliência e de sustentabilidade do território e das populações deixamos as populações isoladas e precariamente assistidas”.


Para Carlos Gaivoto, a resposta passa por criar uma estrutura permanente de coordenação entre urbanismo e transportes. “É necessário fazer um transit act em Portugal”, defende. “Uma convenção que pusesse todas as autoridades a falar sobre pontos muito concretos do que é que são estas redes de transporte coletivo em sítio próprio, como é que elas podem ser trabalhadas”. O objetivo: “começar a organizar institucionalmente esta articulação entre o urbanismo e transportes”. Sem isso, avisa, “estaremos sempre a intervir de uma forma reativa e muito casuística, sem ter uma atitude estratégica perante esse problema”.


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