Avançar para o conteúdo principal

Supremo tribunal dos EUA considera tarifas de Trump ilegais. E agora?

 

Supremo tribunal dos EUA anulou algumas tarifas de Trump, invalidando as taxas globais de 10% que iriam entrar em vigor a 24 de fevereiro.

Donald Trump, 47.º presidente dos EUA da América
© Gage Skidmore

Supreme Court of the United States (Supremo Tribunal) decidiu, a 20 de fevereiro, considerar ilegais as tarifas adicionais impostas pelo presidente Donald Trump ao abrigo da International Emergency Economic Powers Act (IEEPA).

A decisão, aprovada por seis votos contra três, concluiu que o Presidente não detém autoridade legal para impor tarifas generalizadas com base numa declaração de emergência nacional ao recorrer à IEEPA — uma lei de 1977 criada para responder a ameaças externas excecionais.

O acórdão, relativo ao processo Learning Resources, Inc. v. Trump, anula as taxas de 10% aplicadas recentemente a uma vasta gama de produtos importados, bem como as tarifas punitivas associadas ao tráfico de fentanil dirigidas à China, México e Canadá.

MV-Tonsberg-navio-Ro-Ro
Bahnfrend, CC BY-SA 4.0 , via Wikimedia Commons No ano passado, os EUA arrecadaram dezenas de milhares de milhões de euros em tarifas sobre automóveis, peças e metais ao abrigo da Secção 232.

É o fim das tarifas?

Não necessariamente. Como mencionado acima, a decisão aplica-se apenas às medidas impostas ao abrigo da IEEPA. Permanecem em vigor as tarifas decretadas com base noutras leis comerciais, como a Secção 232 (segurança nacional), que sustenta, por exemplo, algumas taxas sobre automóveis, peças e metais.

No acórdão, o tribunal foi claro ao sublinhar os limites do poder executivo: “O poder de tributar pertence ao povo, através dos seus representantes eleitos no Congresso, e não à vontade unilateral do Executivo.” Para os juízes maioritários, o termo “regular” previsto na lei não equivale a um poder ilimitado para taxar.

Impacto nos mercados

A decisão foi recebida como uma vitória por construtores e fornecedores, num contexto em que a indústria já enfrentava forte pressão tarifária. Ainda assim, o tribunal não esclareceu se as empresas terão direito a reembolsos pelas quantias já pagas.

Desde o início do atual mandato presidencial, os EUA arrecadaram mais de 314,4 mil milhões de dólares (cerca de 266,2 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) em direitos aduaneiros, parte dos quais ao abrigo da legislação agora considerada inadequada para sustentar tarifas globais (fonte: U.S. Customs and Border Protection).

A MEMA, associação que representa fornecedores automóveis no país norte-americano, saudou a decisão, destacando o impacto que as tarifas tiveram numa cadeia de abastecimento norte-americana profundamente integrada.

Especialistas alertam, contudo, que a volatilidade comercial deverá manter-se e que não é prudente assumir o fim definitivo das tarifas.

A resposta de Trump

Em reação à decisão, Donald Trump criticou duramente o acórdão e anunciou novas medidas através da rede social Truth.

“Com base numa revisão minuciosa, detalhada e completa da decisão ridícula, mal escrita e extraordinariamente anti-americana sobre as tarifas (…) vou, com efeito imediato, aumentar a Tarifa Mundial de 10% (…) para o nível legalmente permitido de 15%.”

Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América

O presidente norte-americano acrescentou que, nos próximos meses, a “Administração Trump determinará e emitirá as novas e legalmente permitidas tarifas, que continuarão o nosso extraordinariamente bem-sucedido processo de tornar a América grande novamente”.

A nova tarifa de 15% deverá ser aplicada ao abrigo da Secção 122 da Trade Act de 1974, válida por 150 dias, salvo extensão pelo Congresso.

Apesar da decisão do Supremo, o Presidente continua dispor de alternativas para impor tarifas, podendo recorrer, entre outroas, à Secção 301 — utilizada no primeiro mandato contra a China — ou à Secção 232, invocando razões de segurança nacional.


Supremo tribunal dos EUA considera tarifas de Trump ilegais. E agora?


Comentários

Notícias mais vistas:

Construção da maior central solar em Portugal encravada há mais de dois anos na justiça, apesar de aprovada

Santa Luzia in northeastern Brazil.  EPA/SEBASTIAO MOREIRA  Desde 2024 que a autorização ambiental dada à central solar Fernando Pessoa foi suspensa por decisão do juiz e após impugnação do Ministério Público. Agência do Ambiente recorreu, mas não há decisão. A maior central solar aprovada para Portugal, com mais de mil megawatts (MW) de potência, está parada há mais de dois anos, na sequência de processos judiciais colocados contra a aprovação emitida pelas autoridades ambientais. A atribulada história do projeto, que foi batizado com o nome do poeta Fernando Pessoa, mostra que o licenciamento ambiental — por intervenção da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) ou do ICNF (Instituto da Conservação da Natureza de Florestas) — nem sempre é o maior obstáculo à execução dos projetos de energias renováveis. A central solar fotovoltaica Fernando Pessoa está prevista para o concelho de Santiago do Cacém e obteve uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) favorável condicionada em jane...

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Governo assina contrato para DSTelecom levar fibra ótica a todo o país

Miguel Pinto Luz evidenciou que este projeto vai 'tornar viável viver e trabalhar fora das áreas metropolitanas'. - Luís Manuel Neves / Medialivre O Governo já assinou o contrato que vai permitir que a DSTelecom equipe Portugal com rede de fibra ótica, eliminando a atual fragmentação - as chamadas áreas brancas - que se tem sentido no acesso a internet, especialmente àquela de alta velocidade. O contrato foi assinado com as cinco Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional e a operadora que ganhou o concurso internacional em 2025. A DSTelecom vai ficar responsável pela instalação, gestão, exploração e manutenção das redes de comunicações eletrónicas de capacidade muito elevada, tendo o objetivo de dar cobertura a todo o território nacional. De acordo com o Executivo, esta instalação e consequente implementação visar levar internet mais rápida a edifícios residenciais e não residenciais, nomeadamente à indústria, comércio e atividades agrícolas. Em comunicado, o ministro...