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Guterres alerta para "colapso financeiro iminente" da ONU

 


O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, alertou que a ONU está em risco de "colapso financeiro iminente" e que pode ficar sem dinheiro até julho deste ano.

RTP/
Foto: Eduardo Munoz - Reuters

O aviso consta de uma carta enviada aos Estados-membros, na passada quarta-feira e citada pela agência Reuters. Na missiva, Guterres aponta dívidas não pagas e regras orçamentárias como as principais ameaças à sobrevivência financeira da organização.

“A crise está a aprofundar-se, ameaçando a execução dos programas e colocando em risco o colapso financeiro. E a situação deteriorar-se-á ainda mais num futuro próximo”, escreveu Guterres aos embaixadores.

O alerta surge num momento marcado pelo afastamento dos Estados Unidos - seu maior financiador - do multilateralismo.

Washington reduziu drasticamente as contribuições voluntárias para agências da ONU e deixou oficialmente a Organização Mundial da Saúde (OMS) na semana passada. Os EUA não pagaram a sua contribuição para o orçamento regular da organização em 2025-2024, e destinaram apenas 30 por cento do financiamento esperado para as operações de manutenção da paz da ONU, cortando milhares de milhões em ajuda externa, segundo a BBC.

Outros países como o Reino Unido e a Alemanha, também anunciaram cortes na ajuda externa, o que inevitavelmente terá impacto no trabalho desenvolvido pela ONU.

Segundo a BBC, os países são legalmente obrigados a efetuar contribuições obrigatórias para a ONU. Contudo, por falta de verba, esse incumprimento ficará sem registo. 

Embora o presidente norte-americano, Donald Trump, tenha descrito a ONU como tendo um “grande potencial”, criticou o desempenho da organização, afirmando que a ONU não está a cumprir esse potencial. Trump lançou ainda um Conselho de Paz, iniciativa que, segundo críticos, pode enfraquecer o papel histórico da ONU. Apesar de ter sido acusado de tentar substituir algumas funções da ONU, o presidente dos EUA afirmou que o trabalho da comissão aconteceria “em conjunto com as Nações Unidas”, mas, quando questionado anteriormente por um jornalista da Fox News se o Conselho de Paz substituiria a ONU, ele respondeu "bem, talvez", segundo a BBC.

Na carta, Guterres revelou que “as decisões de não honrar as contribuições avaliadas que financiam uma parte significativa do orçamento regular aprovado, foram agora formalmente anunciadas”.

O secretário-geral não especificou quais países deixaram de pagar, e um porta-voz da ONU não comentou o assunto de imediato.
"Um ciclo kafkiano"
De acordo com as regras da organização, as contribuições são calculadas com base no tamanho das economias nacionais.

Os Estados Unidos e a China representam a maior parcela do orçamento principal da ONU, com 22 por cento e 20 por cento, respetivamente. Ainda assim, no final do último ano, o total de dívida pendente atingiu um valor recorde de cerca de 1,3 mil milhões de euros, segundo Guterres.

“Ou todos os Estados-Membros cumprem as suas obrigações de pagamento na íntegra e a tempo, ou os Estados-Membros devem reformular profundamente as nossas regras financeiras para evitar um colapso financeiro iminente”, advertiu.

Na tentativa de conter a crise, Guterres criou, no ano passado, um plano estratégico - a ONU80- com o objetivo de reduzir custos e aumentar a eficiência.

Como parte desse esforço, os Estados-membros concordaram em cortar o orçamento de 2026 em cerca de sete por cento. Apesar disso, o secretário-geral alertou que as medidas podem não ser suficientes.

Um dos principais entraves, segundo Guterres, é uma regra financeira considerada ultrapassada, que obriga a organização a devolver aos Estados centenas de milhões de dólares em contribuições não utilizadas todos os anos.

Como resultado, a ONU está a devolver milhões de dólares que nunca recebeu de facto.

“Ainda este mês, como parte da avaliação de 2026, fomos obrigados a 227 milhões de dólares (cerca de 191 milhões de euros) - fundos que não cobramos”, pode ler-se na carta.

“Por outras palavras, estamos presos em um ciclo kafkiano, sujeitos a devolver dinheiro que não existe”, afirmou, evocando o escritor Franz Kafka e as suas obras sobre burocracias opressivas.

Como consequência dos cortes, foram encerradas várias clínicas para mães e bebes no Afeganistão- país com uma das maiores taxas de mortalidade materna do mundo. Também no Sudão, o Programa Mundial de Alimentos teve de cortar alimentos destinados a refugiados.

O alerta evidencia assim que, sem mudanças no financiamento ou nas regras internas, a ONU enfrenta uma das maiores crises financeiras de sua história.


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