Avançar para o conteúdo principal

Foi um "bólide dos mais bonitos e raros" que provocou o clarão em Portugal. Mas isto é perigoso? "Em teoria sim, mas era preciso muito azar"



"Um objeto destes entra na atmosfera a uma velocidade entre os 10 e os 70 quilómetros por segundo. Este entrou a 45. Já era grandinho e rápido." E mais: "É como se estivesse a passar um avião supersónico. Por alguma razão os militares estão proibidos de passar com os aviões acima da velocidade do som por cima das cidades"

O clarão que iluminou céus de Portugal e Espanha na última madrugada foi provocado por um meteoro que não atingiu a superfície terrestre, apesar de ser “realmente grande”. De acordo com o Instituto de Astrofísica da Andaluzia, com sede em Granada, o objeto entrou na atmosfera a uma velocidade de 161 mil quilómetros por hora (cerca de 45 quilómetros por segundo) e deixou de ser avistado quando ainda estava a 54 quilómetros de altitude.

“Pelas imagens registadas pelo instituto - eles têm uma rede de observação muito maior do que a nossa -, ele vaporizou-se quando ainda estava a mais de 50 quilómetros de altitude e não chegou a atingir a superfície terrestre", diz à CNN Portugal o astrofísico Nuno Peixinho, investigador Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e da Universidade de Coimbra. "No fundo, o clarão que vimos é precisamente o objeto a vaporizar-se. Um objeto destes entra na atmosfera a uma velocidade entre os 10 e os 70 quilómetros por segundo. Este entrou a 45. Já era grandinho e rápido.”

De acordo com o jornal Granada Hoy, a trajetória do objeto foi registada pelos observatórios do Projeto Smart, do Instituto de Astrofísica da Andaluzia, em Calar Alto (Almería), La Hita (Toledo), Huelva, Sierra Nevada e La Sagra (Granada), Sevilha e Marçà (Tarragona).

Há uma diferença entre meteoro e meteorito. Clique na imagem para ver a explicação. 

Segundo uma análise preliminar dos dados obtidos, feito por José María Madiedo, do Instituto de Astrofísica da Andaluzia, o objeto teve origem cometária. De acordo com Nuno Peixinho, trata-se de um meteoro (meteorito denomina apenas o fragmento que atinge a superfície terrestre) que, “por ser daqueles muito brilhantes, chamamos bólide - em inglês é fireball”.

“Estes maiorzinhos, que fazem este clarão luminoso, são mais bonitos mas são raros”, resume o astrofísico português.

O especialista esclarece ainda que estes fenómenos são “relativamente frequentes” mas menos visíveis em Portugal por causa de ser um país com um território mais reduzido. “Estatisticamente, os meteoritos caem mais na Rússia, porque a Rússia tem mais área. É o maior país do mundo. A maior parte deles até cai nos oceanos, porque dois terços da superfície da Terra é mar.”

O barulho

Nuno Peixinho explica que o “barulho” relatado por muitas testemunhas “só significa que era grandinho”. “Estremecer e fazer barulho é normal, porque é a onda de choque. É como se estivesse a passar um avião supersónico. Por alguma razão os militares estão proibidos de passar com os aviões acima da velocidade do som por cima das cidades. Caso passassem provocariam danos, como vidros partidos, por exemplo”, explica.

“Neste caso, só significa que era uma cosia grande. Foi muito energético na atmosfera. Não foi suficientemente grande ou não passou suficientemente perto para, por exemplo partir vidro, mas já era grandinho”, sublinha Nuno Peixinho.

O astrónomo José Augusto Matos acrescenta que “este ruído que muitas pessoas relatam terem ouvido na zona de Castro Daire pode não corresponder a nenhuma queda. "Este ruído é provocado pela entrada na atmosfera."

“Em Portugal, não me recordo da última vez em que houve relatos de barulho”, resume Nuno Peixinho para ilustrar a raridade de um fenómeno desta natureza no nosso país.

Perigoso? “Em teoria sim, mas era preciso muito azar”

O astrofísico Nuno Peixinho diz que fenómenos como o que aconteceu na última madrugada podem “em teoria ser perigosos, mas era preciso muito azar para que fossem”.

“Há 60 milhões de anos houve um meteoro cujo impacto reativou o vulcanismo, mudou o clima de tal forma que 90% das espécies da terra desapareceram, incluindo os dinossauros… Em teoria pode acontecer, mas é difícil”, garante.

O especialista explica que a atmosfera da Terra protege-nos de meteoros com até cinco metros de diâmetro. “Se for mais pequeno do que cinco metros vai desintegrar-se e não cai nada no chão. Se for maior, é possível que caia alguma coisa no chão.”

Prever e evitar

Nuno Peixinho explica à CNN Portugal que os astrónomos e astrofísicos estão a fazer um trabalho de rastreamento dos céus para identificar estes objetos que podem constituir algum tipo de perigo e prever com antecedência de vários anos se vão colidir com a Terra. “Conhecemos 90% a 95% de tudo o que tem mais de um quilómetro e que esteja perto. Estamos a tentar descobrir todos os que tenham até 500 metros”, explica.

“Um asteroide com 100 metros, se caísse numa cidade, tinha um potencial de destruição de 10 vezes mais. A cratera poderia ter um um quilómetro de diâmetro e o ‘chuveirinho’ de pedras e de poeiras do impacto poderia atingir um raio de cinco a 10 quilómetros”, acrescenta.

O especialista diz ainda que “não é como nos filmes” e não é possível destruir estes objetos evitando a colisão com a Terra. Mas “estamos a trabalhar para desviá-los um bocadinho todos os dias para eles falharem a rota da Terra”. 


Foi um "bólide dos mais bonitos e raros" que provocou o clarão em Portugal. Mas isto é perigoso? "Em teoria sim, mas era preciso muito azar" - CNN Portugal (iol.pt)


Comentários

Notícias mais vistas:

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Google: Desde a Carolina do Sul até Portugal: Sines acolhe novo cabo submarino

 Desde a Carolina do Sul até Portugal: Sines acolhe novo cabo submarino transatlântico da Google - CNN Portugal Desde a Carolina do Sul até Portugal: Sines acolhe novo cabo submarino transatlântico da Google O sistema de cabos Nuvem da Google vem juntar-se a outros dois cabos submarinos de alta capacidade que já ligam Portugal a outros continentes – o cabo Equiano, também detido pela Google, a conectar Portugal à África do Sul, passando por outros países do continente africano, e o EllaLink, que liga Sines ao Brasil, na América Latina A Google, detida pela Alphabet, tem um novo cabo submarino transatlântico a ligar o sul dos Estados Unidos da América a Sines, na costa vicentina. A informação foi avançada esta terça-feira pela empresa-mãe da Google em comunicado, no qual adianta que a nova ligação, já a funcionar, entre os EUA e Portugal surge perante um forte aumento na procura por computação em nuvem e por serviços de Inteligência Artificial (IA). Batizado "Nuvem", a remeter...

Um gigantesco "túnel de proteção": Ucrânia já tem mais de mil quilómetros de escudo

 Um gigantesco "túnel de proteção": Ucrânia já tem mais de mil quilómetros de escudo antidrone para travar ataques russos A cobertura com redes faz parte de uma estratégia que funciona em conjunto com a crescente utilização de veículos e robôs terrestres A Ucrânia já instalou mais de 1.000 quilómetros de proteção antidrone sobre estradas consideradas essenciais para o abastecimento das suas tropas, numa resposta direta ao crescente impacto dos drones russos na linha da frente. Segundo o Ministério da Defesa ucraniano, o Serviço Estatal de Transportes Especiais construiu, desde o início de 2026, um total de 1.066 quilómetros de cobertura em rotas logísticas estratégicas. Só desde o início de junho foram acrescentados 325 quilómetros de novas estruturas, restaurados mais de 31 quilómetros e reparados cerca de 233 quilómetros de estradas. As autoridades ucranianas, segundo o Euromaidan, sublinham que as vias de abastecimento são atualmente um dos principais alvos das forças russ...