Avançar para o conteúdo principal

IGF sugere mudar lei de 1933 que protegeu Pedro Nuno Santos


Diretora da Inspeção-Geral de Finanças considera que se não fosse diploma do Estado Novo, Pedro Nuno Santos e Hugo Mendes poderiam ser eventualmente responsabilizados pela indemnização da TAP.

A Inspeção-Geral de Finanças (IGF) enviou o relatório sobre a saída de Alexandra Reis ao Tribunal de Contas para este apurar responsabilidades financeiras em relação à CEO da TAP e ao presidente do conselho de administração. Se não fosse uma lei de 1933, esse apuramento poderia ter sido estendido também ao anterior ministro das Infraestruturas e ao seu secretário de Estado. Diretora da entidade de auditoria lembrou que são os deputados quem pode mudar a lei.

O inspetor-geral da Inspeção-Geral de Finanças, António Manuel Ferreira dos Santos (E), acompanhado pelo presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito à Tutela Política da Gestão da TAP, Jorge Seguro Sanches (D), à chegada para a sua audição na Assembleia da República, em Lisboa, 29 de março de 2023.ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

A lei está vigente. Se os senhores deputados entendem que não se deve manter, aqui é o sítio certo para a alterar. Enquanto estiver em vigor é essa que se aplica”, afirmou a diretora da IGF, Carla Reis Santos, que acompanhou o inspetor-geral de Finanças na audição desta quarta-feira na comissão de inquérito à TAP.

O tema da desresponsabilização das tutelas no relatório sobre a saída da antiga administradora da TAP, com uma indemnização de 500 mil euros brutos, foi levantada pelos deputados.

Hugo Carneiro, do PSD, considerou que o relatório da IGF é “um fato à medida que está ferido de morte. Não percebemos o papel do CFO da TAP e desresponsabilizamos as responsabilidades dos governantes com base numa lei com 90 anos. São algumas da conclusões que podemos tirar hoje”. Criticou também o que considerou ser “a tentativa de afastar responsabilidades do Ministério das Finanças”.

Bruno Dias, do PCP, questionou especificamente a IGF sobre se na ausência da legislação de 1933, as responsabilidades podiam ser estendidas aos antigos governantes. “Se for lido com atenção o que está no relatório é que concluímos que houve conhecimento dos ex-governantes e por algum motivo foi feita exposição desse conhecimento. Se não existisse disposição de 1933 o quadro de responsabilidades financeiras poderia, hipoteticamente, envolver esses dois intervenientes“, afirmou Carla Reis Santos.

O diploma do Estado Novo iliba de responsabilidades o titular do cargo público caso este siga a orientação dada pelos serviços ou “estações”. A IGF entendeu que, neste caso era a TAP, em concreto a CEO e do CFO.

A responsabilidade política sai do nosso âmbito. Em termos de responsabilidade financeira temos o diploma das estações. A CEO da TAP garantiu que processo estava a ser acompanhado por duas sociedades de advogados de renome por parte da TAP e da engenheira Alexandra Reis”, assinalou a diretora da IGF. Carla Reis Santos afirmou ainda que o outsourcing “é um problema transversal da Administração Pública e decorre da falta de recursos próprios”.

Instado também por Bruno Dias, o inspetor-geral de Finanças concordou que sendo uma empresa pública, a TAP foi gerida como uma empresa privada, o que ajuda a explicar o processo de saída da antiga administradora. “Perguntámos se se sentiam gestores públicos? A resposta não foi surpreendente. Era gerida como se uma empresa privada se tratasse. E as consequências estão à vista de todos”, disse António Ferreira dos Santos.

Filipe Melo criticou a comissão por não aferir a responsabilidade do administrador financeiro, Gonçalo Pires, que será ouvido esta quinta-feira na comissão de inquérito. “Tinha responsabilidade de aferir quem aprovou pagamento da indemnização. Esta prática de atuação do CFO não é relevante para o processo? O relatório levou à demissão da CEO e chairman. Se trabalho fosse bem feito, estaríamos a falar em três, CFO incluído“, atirou o deputado do Chega.

Bernardo Blanco acusou Hugo Mendes, ex-secretário de Estado das Infraestruturas, de prestar declarações falsas à IGF por duas vezes, uma vez que os emails trocados mostram que estava a par da indemnização e do teor do acordo com Alexandra Reis. Acreditamos que houve um recordar da informação melhor, que houve uma evolução de pensamento. Não quisemos tirar conclusão sobre existência de falsas declarações“, respondeu o inspetor-geral de Finanças.

“Dava jeito a muitos portugueses puderem dizer que em vez de terem mentido evoluíram de pensamento. Mentiu. É a expressão certa”, retorquiu o deputado da Iniciativa Liberal, que questionou ainda porque não foi ouvido ninguém do Ministério das Finanças. António Ferreira dos Santos apontou que os factos são precedentes à atual equipa e que não há registo de conhecimento do processo nas Finanças.

“Há alguns deputados que consideram que o relatório não é bom e não tem credibilidade, mas dizem que deviam era fazer mais relatórios sobre a TAP. Como não satisfaz intenções de alguns partidos, o melhor era ter outro relatório da IGF ou do Tribunal de Contas”, criticou Carlos Pereira, do PS, visando os partidos da direita. “Há um grupo de deputados que estão irritados porque a auditoria penaliza quem não cumpriu a lei e iliba quem a cumpriu. Não é compreensível. As conclusões são sustentadas em factos”, acrescentou. 


IGF sugere mudar lei de 1933 que protegeu Pedro Nuno Santos – ECO (sapo.pt)


Comentários

Notícias mais vistas:

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Lisboa vai acolher novo centro de cibersegurança da Vodafone

Luís Lopes, CEO da Vodafone Portugal. Foto: Pedro Catarino A empresa vai contratar 40 especialistas em várias vertentes de cibersegurança para o centro de Lisboa. Esta instalação vai estar em constante comunicação com os "hubs" espalhados pelo mundo, nomeadamente Reino Unido e Índia.  A Vodafone escolheu a capital portuguesa para instalar o mais recente centro de cibersegurança. Lisboa, onde a empresa tem a sede em território nacional, vai receber o novo Global Cyber Centre, apoiando toda a evolução que se tem sentido no setor.  O objetivo deste centro estratégico, de acordo com comunicado da operadora de telecomunicações, é reforçar a segurança e resiliência das operações, redes e sistemas de todo o grupo.  A empresa não adiantou valores de investimento deste centro, apontando tratar-se de uma aposta a longo prazo por parte do grupo e que "reforça o papel de Portugal como polo de talento e inovação na área da cibersegurança". Este centro de cibersegurança vai empre...

China instala maior estação conversora de energia eólica offshore do mundo

Heart of Offshore Wind. D.R. A estação mede 85,5 metros de comprimento, 82,5 metros de largura e 44 metros de altura, cobrindo uma área equivalente a um campo de futebol convencional e com a altura de um edifício de 15 andares.  Pequim instalou a maior estação conversora eólica offshore do mundo no mar do Sul da China, um projeto que vai beneficiar diretamente a zona económica da Grande Baía, onde está localizada Macau, foi noticiado pela comunicação social estatal. A maior e mais potente estação conversora offshore do mundo, com o nome de "Heart of Offshore Wind", foi instalada em 23 de julho, a cerca de 100 quilómetros ao largo da costa de Yangjiang, na província de Guangdong, sul da China, informou a emissora estatal CCTV. Trata-se da primeira estação conversora offshore flexível de corrente contínua (CC) de 500 quilovolts e 2.000 megawatts do mundo. O projeto está agora na fase final de ligação dos cabos submarinos e de testes conjuntos entre as instalações offshore e em ...