Avançar para o conteúdo principal

IRS no Casal: pode não incentivar a procura de emprego do 2º membro

FMI considera que atual sistema é desincentivador. Separar taxação aumenta IRS anual a liquidar quando os dois estão empregados

IRS separado para casais compensa se um membro for desempregado e arranjar emprego.

O FMI diz que taxar em conjunto o casal em sede de IRS desincentiva a procura de emprego se um cônjuge estiver desempregado. Mas taxar em separado acaba por ser pior quando estão os dois empregados. O fiscalista Tiago Caiado Guerreiro e Jaime Esteves, responsável pelo departamento fiscal da consultora PwC, não têm dúvidas quanto a esse aspeto.

Portugal é dos poucos países que aplica de forma compulsiva o conceito de unidade familiar do ponto de vista fiscal, impondo uma taxa marginal elevada. A frase está no documento "Selected Issues" do FMI, anteontem divulgado. A opinião não vincula o Fundo, mas levanta uma questão complicada. Na Europa, só o Luxemburgo e França obrigam à taxação conjunta. Espanha, Alemanha e Irlanda dão a opção aos casais. Todos os outros países europeus taxam o IRS de forma separada cada membro do casal.

Mas o que quer o FMI dizer em concreto? Com base num exemplo construído com a ajuda de um simulador da PwC, imaginemos um casal em que ele ganha 1500 euros (brutos) por mês e a mulher não ganha porque está desempregada. Tratando este caso à luz da legislação atual, o rendimento do casal é dividido pelos dois para apurar o imposto. Neste caso, o IRS anual a liquidar ascende a 2543,92 euros. Imaginemos agora que a mulher arranja um emprego de 750 euros. Então o IRS a pagar sobe para 4590,64 euros, isto é, mais 2046,72 euros. A amplitude deste aumento na fatura fiscal desincentiva a procura de trabalho, alega o FMI.

Vamos agora supor que a legislação em vigor já tributa separadamente aquele mesmo casal. Ganhando ele 1500 euros e estando ela desempregada, o IRS anual a liquidar ascende a 3975,32 euros (contra os 2543,92 euros na legislação que junta o rendimento do casal e divide por dois). Não compensa mudar a Lei, parece ser a conclusão mais óbvia.

No entanto, o raciocínio dos técnicos do FMI não se limita a este cálculo. Temos agora de supor que ela arranja o tal emprego de 750 euros mensais e que se aplica agora a taxação separada. O IRS anual a liquidar passa a 4688,99 euros (os tais 3975,32 euros de imposto do marido e, agora, mais 713,67 euros relativos à mulher).

Ou seja, pelo facto de ela se empregar, o acréscimo de IRS anual liquidar foi de apenas 713,67 euros. Mas no regime da taxação em conjunto do casal, a diferença no IRS a pagar, entre a situação de um titular e dois titulares, era de 2046,72 euros.

Na visão do FMI, taxar em separado incentiva mais ao trabalho.
"Numa situação estática, a melhor opção é estar casado [fiscalmente] porque dilui/atenua a progressividade. Numa situação dinâmica de um cônjuge que regressa ao mercado de trabalho, a tributação individual permite reduzir o aumento da tributação por efeito da remuneração adicional", afirma Jaime Esteves.

Mas essa situação só ocorre porque o efeito da progressividade [pagar mais quanto mais se ganha] do imposto não foi atenuada, enquanto só um dos cônjuges tinha remuneração pelo facto de o outro estar fora do mercado de trabalho. Ou seja, segundo Jaime Esteves, na situação de desemprego de um dos cônjuges, a opção sugerida pelo FMI é penalizadora. "Veja se que, por exemplo, um casal com apenas uma remuneração e um solteiro com igual remuneração teriam a mesma carga fiscal", alerta o responsável pelo departamento fiscal da PwC.

O fiscalista Tiago Caiado Guerreiro diz que não só concorda com a sugestão do FMI como também vem sugerindo há muito esse regime de tributação autónoma do casal. "Sublinho que só há ganho para os contribuintes numa situação dinâmica, em que um dos cônjuges está desempregado. A tributação separada pode representar um cenário em que o regresso ao mercado de trabalho é menos penalizador. No caso de uma situação estática, em que os dois estão empregados, o incentivo a ganhar mais é menor e, portanto, o regime proposto pelo FMI seria mais penalizador em termos de IRS".

Em: http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO093003.html?page=0

Comentários

Notícias mais vistas:

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Open Cosmos capta 300 milhões e “vai acelerar investimento em Portugal”

 Empresa britânica tem 50 milhões para investir em Portugal, onde pretende duplicar a equipa de 50 para 100 pessoas. Com este novo financiamento, esse plano vai "acelerar". A britânica Open Cosmos fechou uma ronda de 300 milhões de euros para acelerar a ligação a partir do Espaço. Portugal é “uma das quatro localizações core” da empresa, mercado onde tem previsto um investimento de 50 milhões. “Este financiamento vai apenas acelerar este investimento”, diz fonte oficial ao ECO/eRadar. “Portugal é uma das quatro localizações core da Open Cosmos. Tal como anunciámos anteriormente, a equipa em Portugal é constituída por 50 pessoas, e planeamos dobrar a equipa e investir 50 milhões no país”, adianta a mesma fonte. Com quatro fábricas no Reino Unido, Grécia, Espanha e Portugal, com 400 trabalhadores, e capacidade para fabricar um satélite por dia, a empresa tem vindo a lançar uma nova geração de satélites para a OpenConstellation, procurando reduzir o tempo de entrega de produtos ...

Energia nas rochas: será o subsolo a bateria de que precisamos para a transição energética?

Direitos de autor AP Photo/Ross D. Franklin Um estudo de investigadores portugueses analisou diferentes possibilidades de armazenamento de energia com ar comprimido em rochas porosas em profundidade. No melhor cenário, um reservatório poderia armazenar energia suficiente para o consumo de uma pequena cidade. Armazenar energia no subsolo: parece ficção científica mas é uma prática que não é propriamente nova no contexto da investigação geológica. Conhecida desde a década de 70 do século passado com as primeiras experiências em cavernas de sal na Alemanha, o processo representa um mundo de possibilidades no campo da energia renovável e da necessidade de armazenamento que este acarreta. "Um dos problemas que existe com a transição energética é a existência de uma maior disponibilidade de energia de fontes renováveis, que não é possível ser armazenada", explica à Euronews Ricardo Pereira, investigador do GeoBioTec da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisb...