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Não existe um final feliz a curto prazo na Venezuela

"Não existe um final feliz a curto prazo na Venezuela"


Entrevista a Andrés Malamud, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa:

Pela primeira vez em 16 anos, e de acordo com as sondagens, o chavismo pode perder a maioria na Assembleia Nacional. Maduro vai reconhecer a derrota?

O chavismo vai provavelmente perder as eleições, mas ainda não é certo que perca a maioria na Assembleia. O sistema eleitoral está desenhado para sobrerrepresentar as zonas rurais e os distritos onde o chavismo tem maior apoio. Além do mais, o desenho dos círculos eleitorais "acumula" os votos opositores em uns poucos distritos, desperdiçando-os. Para dificultar ainda mais a análise, a participação eleitoral na Venezuela é muito baixa, das mais baixas na América Latina. Isso quer dizer que umas poucas pessoas que decidam votar ou deixar de fazê-lo à última hora podem mudar o resultado. Qualquer que seja o resultado, exceto se for muito estreito e impugnável, acho que Maduro vai reconhecê-lo. Se perder, em todo o caso, manobrará mais tarde para anular os efeitos do resultado.

Será o princípio do fim do chavismo ou apenas do "madurismo"?

O princípio começou há muito tempo, o chavismo está condenado pela economia, que depende do preço internacional do petróleo e mais nada. Não sabemos é se este será o fim.

Tendo uma maioria, será a Mesa de Unidade Democrática, que agrega partidos de várias cores políticas, capaz de se manter unida?

É bem capaz, e não apenas disso: pode demorar a tomada de posse dos novos deputados, pode meter alguns na prisão, pode impedir as sessões por via de provocações mais ou menos violentas, pode governar por recurso a medidas extraordinárias...

As sondagens apontam para a derrota do chavismo. Mas podem estar enganadas e vencer. Qual será a reação da oposição?

A oposição é uma amálgama de setores diversos. Os mais razoáveis, como Henrique Capriles, farão apelos à calma e não violência; os mais radicais, como Leopoldo López e Maria Corina Machado, são capazes de convocar um levantamento popular.

Teremos novos protestos e violência nas ruas, independentemente de quem ganhe?

Sim, sempre. A economia da Venezuela está em ruínas, a escassez é galopante, a pobreza só aumenta e Caracas já é a cidade mais violenta do continente. Não existe um final feliz a curto prazo na Venezuela.

Nicolás Maduro quase não aceitou observadores internacionais. Haverá garantias de eleições livres?

Garantias não, de maneira nenhuma. Mas o chavismo não se caracteriza pela fraude e sim pela manipulação prévia (e durante o voto) do aparelho estatal: manipulação das regras eleitorais, propaganda enganosa, acarreio de eleitores, etc. O chavismo existiu porque a maioria dos eleitores venezuelanos assim quiseram, não porque um ditador o tenha imposto.

São cada vez mais as vozes críticas contra Nicolás Maduro, desde o secretário-geral da Organização de Estados Americanos ao novo presidente argentino Mauricio Macri. Que impacto terão as eleições venezuelanas na região?

O governo da Venezuela sente a pressão regional como uma ingerência estrangeira e um ataque ao regime, mas mesmo assim o controlo externo contribui para equilibrar o campo de jogo. Não prevejo sanções, qualquer que seja o resultado, exceto se existir um golpe (dos militares chavistas, não a oposição, contra Maduro) ou autogolpe (os militares para defender Maduro de uma Assembleia opositora).


Em: http://www.dn.pt/mundo/entrevista/interior/nao-existe-um-final-feliz-a-curto-prazo-na-venezuela-4917430.html

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