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Onda gigante pode atingir Portugal

Massa rochosa nas Canárias ameaça desprender-se do vulcão Cumbre Vieja

Na semana em que um violento tsunami devastou o Sudeste asiático, os cientistas voltam a alertar para o perigo de um fenómeno semelhante no oceano Atlântico. Desta vez não devido a um sismo, mas a uma erupção vulcânica. Nas Canárias, uma gigantesca massa rochosa ameaça desprender-se do vulcão Cumbre Vieja, na ilha de La Palma, e cair no mar. Quando isso acontecer, uma gigantesca onda atravessará todo o Atlântico, em direcção ao continente americano. Em apenas quatro horas, também a costa portuguesa será atingida pelas vagas.

O último alerta para a possibilidade deste desastre foi feito há seis meses pelo professor Bill McGuire, do Benfield Research Centre, do University College, de Londres. Numa reunião de sismólogos, o cientista avisou que uma massa rochosa de 500 mil milhões de toneladas se está a soltar do grande vulcão, na vertente Sul de La Palma. Agora, o cientista volta a chamar a atenção do mundo para a necessidade de vigiar a velha montanha, de modo a detectar sinais prévios que indiciem uma erupção.

Como explicou ao DN o especialista Víctor Hugo Forjaz, da Universidade dos Açores, «um vulcão de grandes dimensões, como o Cumbre Vieja [com 2426 metros de altura] é uma massa pesada que vai crescendo ao longo dos anos, com os materiais empilhando-se uns sobre os outros, de forma cónica». A partir de certa dimensão, atinge massas que podem desequilibrar- -se, tendo em conta o chamado «ângulo de atrito interno», ou ponto de equilíbrio. À semelhança do que acontece com um monte de areia molhada, que se vai desfazendo à medida que cresce.

Segundo os cientistas, uma erupção do Cumbre Vieja - cujo risco não é iminente: pode ocorrer dentro de dez a 200 anos - poderá provocar o deslizamento dessa enorme massa rochosa. Ao cair no mar, o gigantesco bloco provocará uma onda com cem metros de altura, que atravessará o Atlântico a uma velocidade de 800 quilómetros por hora. As vagas atingirão primeiro a costa ocidental da África.

Quatro horas depois será a vez do continente português e Galiza, e mais tarde as ilhas britânicas. Passadas oito a nove horas, a parede de água alcançará a costa leste da América do Norte e das Caraíbas, com ondas que poderão chegar aos 50 metros de altura.

Mas o fenómeno não é novo. Segundo José Madeira, vulcanólogo da Faculdade de Ciências de Lisboa, o deslizamento de terras é comum na evolução dos vulcões insulares. Há indícios disso na ilha do Fogo, Cabo Verde, e até mesmo na ilha da Madeira.

Mas é «impossível prever» quando ocorrerá o colapso de que fala Bill McGuire, com base no novo modelo do célebre estudo do colega Simon Day, de 1999.

Embora não se saiba quando tal acontecerá, o vulcanólogo não tem dúvidas: o deslizamento de terras formaria «um enorme tsunami, que atingiria a costa europeia, embora com menor intensidade, devido à orientação». Portugal não seria excepção. As zonas mais devastadas seriam o Algarve e o Alentejo, «costas mais baixas».

E o nosso País «não está preparado» para uma catástrofe destas.

Basta recordar o fenómeno atmosférico no Algarve, que há uns anos se pensou ser um tsunami. «Não havia sistema de evacuação de pessoas. Se fosse mesmo um tsunami, depois de ser avistado, levaria cinco minutos a chegar a terra. E as autoridades demoraram horas a tirar as pessoas da praia.» Como «não conhecem o fenómeno, tomam decisões erradas».

Daí que para o cientista seja fundamental a criação de um sistema de aviso de tsunamis em Portugal, que permita detectar o risco e avisar a população. É que, como afirma Bill McGuire, «se 80% dos tsunamis ocorrem no Pacífico, eles também ocorrem noutros locais».

http://www.dn.pt/dossiers/mundo/tsunami/noticias/interior/onda-gigante-pode-atingir-portugal-983932.html

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